Um ensaio sobre a Marca da Besta - Propósito e Natureza

João não vislumbra um simples implante subcutâneo ou um aparelho de alta tecnologia que poderia, com grande facilidade, alertar até mesmo os mais incrédulos. O cenário é mais sutil, a estratégia é extremamente ardilosa.

Jamil Filho
Jamil Filho

O presente artigo não tem por objetivo esgotar o assunto em questão, nem ainda tratar de todas as nuances sobre o tema. Talvez não chegue à uma conclusão satisfatória, mas como destaquei na apresentação do projeto TEOleigo, a ideia deste blog é simplesmente ser um diário de bordo em minha jornada pelo estudo da teologia. (Se ainda não leu a apresentação do projeto TEOleigo, sugiro que leia antes de prosseguir neste artigo - disponível aqui).

Sendo assim, seus comentários, observações e considerações sobre o assunto serão bem-vindos. Notas introdutórias

Ao lermos e estudarmos o livro do Apocalipse é importante compreender que, ao contrário dos demais livros do Novo Testamento, o registro feito pelo Apóstolo João se difere não apenas em sua estrutura, mas também em seu propósito.

O Apocalipse encerra a revelação bíblica, sua presença no cânon não é despropositada, pelo contrário, a revelação da vitória final do Reino de Deus sobre o reino do anticristo e o império do pecado é uma resposta às tensões levantadas no desenvolvimento do Novo Testamento.

A tensão criada pelo crescente aumento da corrupção apresentada por Paulo (2 Timóteo 3.1-9), Pedro (2 Pedro 2), João (1 João 2.18-27) e Judas (v. 3-16), é solucionada com a revelação de Jesus Cristo, o Rei vitorioso que esmaga seus inimigos e entrega o poder ao Pai.

Além disso, é necessário considerar os aspectos relacionados à estrutura do livro, seu conteúdo é permeado por simbolismo1 e sua escrita, fruto do registro das visões do Apóstolo, possuem elementos típicos de um livro profético.

Sendo assim, consideremos os dois pontos essenciais deste estudo: 1) qual o propósito da marca da besta e 2) qual a sua natureza.

Qual propósito da marca da besta?

O conceito de marcar uma pessoa ou um grupo de pessoas não é uma exclusividade do texto joanino, nem mesmo uma ideia introduzida somente no Apocalipse. Diversos textos bíblicos nos apresentam o ato de marcar/selar alguém como símbolo de proteção e identificação de propriedade.

Em Gênesis, ao lermos o relato do primeiro assassinado, nos deparamos com Caim sendo confrontado por Deus. Ao ouvir que seria andarilho na terra, Caim teme por sua vida reconhecendo que alguém, ao encontrá-lo, poderia querer vingar o sangue de seu irmão.

Contudo, a fim de poupá-lo, Deus coloca um sinal sobre ele. "E pôs o Senhor um sinal em Caim, para que o não ferisse qualquer que o achasse" (Gênesis 4.15).

Em Ezequiel 9, ao ter a visão do juízo de Deus sobre Jerusalém, o profeta ouve a ordem: "Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca com um sinal as testas dos homens que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela" (Ezequiel 9.4)

Deus ordena que o anjo assinalassem com um sinal, as testas dos homens que sofriam ao contemplar a corrupção de sua geração.

Da mesma forma, ao instituir a primeira Páscoa, Deus determina que os hebreus marquem suas casas com o sangue do cordeiro como sinal de distinção entre os filhos de Israel e os filhos do Egito (Êxodo 13.7-6,12-13).

No Novo Testamento também encontramos algumas passagens. Escrevendo aos irmãos de Éfeso, o Apóstolo Paulo afirma: "E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção" (Efésios 4.30).

Embora o Espírito Santo possa ser entristecido, Ele jamais abandona o crente. Ele é o nosso selo. Fomos selados por Ele para o dia da redenção. Ele é a garantia de que nossa redenção será completada. (MARTIN, 2017)

Assim como Deus selou os israelitas com o sangue do cordeiro pascal, identificando-os como Seu povo e poupando suas almas da morte, o Espírito Santo sela a Igreja de Cristo a fim de garantir sua salvação.

"... e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória" (Efésios 1.13,14) Agora, no Apocalipse, lemos um registro interessante do próprio Cristo selando seu povo, "... que em suas testas tinham escrito o nome de seu Pai" (Apocalipse 14:1). A marca que receberam os identifica como propriedade do Cordeiro, pois foram "[...] comprados como primícias para Deus e para o Cordeiro" (v. 4).

O Apóstolo João não apenas apresenta o selo de Deus como um sinal de distinção entre os seguidores do Cordeiro e os seguidores da besta, mas também introduz o conceito de propriedade divina, paga com o sangue de Cristo conforme declara o Apóstolo Pedro (1 Pedro 1.18,19).

Qual a natureza da marca?

No capítulo 13, o Apóstolo João nos descreve duas bestas, identificadas como o Anticristo e o Falso Profeta.

A primeira besta recebe de satanás poder e autoridade, sua influência será "...sobre toda a tribo, e língua, e nação" (v. 13). Contudo, embora a primeira besta seja poderosa, não é ela que sela seus seguidores.

A responsabilidade de assinalar os adoradores da besta fica à cargo do falso profeta que "faz que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, lhes seja posto um sinal na sua mão direita, ou nas suas testas" (v. 16).

Mesmo que exista uma restrição econômica vinculada à marca (v. 17)2, sua natureza está relacionada mais ao aspecto religioso do que, necessariamente, político, social e comercial.

Em Êxodo 13.14-16, após estabelecer os preceitos referente à consagração dos primogênitos, Deus determina que os israelitas anunciem suas obras às gerações futuras.

E, neste texto, uma declaração feita pelo Senhor nos fornece um elemento chave na compreensão do conceito apresentado pelo Apóstolo João no Apocalipse. A besta não assinala a mão e a testa em vão. "E será isso por sinal sobre tua mão, e por frontais entre os teus olhos" (v. 16). O texto da Nova Versão Internacional é mais esclarecedor, "Isto será como sinal em sua mão e marca em sua testa"[grifo nosso].

O Senhor afirma que a memória de Seus atos e a proclamação de seus feitos à geração seguinte seria um sinal posto na mão e um símbolo gravado na testa dos israelitas.

Da mesma forma o faz satanás. Tanto num, como noutro texto é estabelecido um paralelo entre marca e culto, símbolo e adoração.

[...] a religião de alguém não é definida apenas em esforços de busca por um Deus pessoal, mas em qualquer busca por uma origem absoluta de toda a diversidade temporal de sentido [...] nossa verdadeira religião está relacionada a algo que erguemos no nosso interior [...] e que afetam nossos comportamentos. (MARTINS, 2020)

Enquanto a repetição dos feitos de Deus, de geração e geração, tinham por propósito elevar a Pessoa de Deus sobre todas as coisas, os sinais operados pelo Falso Profeta e a imagem que ele forja, elevam o anticristo nos corações de cada homem e mulher que por ele são enganados.

Na medida que a adoração é estabelecida, a maneira como respondemos à realidade é alterada. Cada um age em conformidade com a moralidade do deus adorado.

Enquanto os israelitas mantivessem as obras do Todo Poderoso vívidas em seus corações, suas ações e pensamentos estariam alinhados à santidade e à glória de Deus. Tal argumento é reforçado com diversas passagens que estabelecem a obediência como resposta ao Deus que tirou o povo com mão forte do Egito.

"E engana os que habitam na terra com sinais que lhe foi permitido que fizesse em presença da besta" (Apocalipse 13.14). A marca da besta, antes de ser um sistema de controle social, é uma identificação religiosa, é a maneira como satanás e o anticristo selam sua propriedade e estabelecem nas mentes (testa) e nas obras e ações (mão direita) como seus servos agirão.

As mentes foram condicionadas pela adoração ao falso deus, os homens não rejeitarão o anticristo, pois este corresponde ao desejo mais profundo do coração pecaminoso humano.

Não apenas consentirão com as blasfêmias proferidas pela besta (Apocalipse 13.5,6), mas também se unirão à ela em coro de insulto ao Eterno Deus (Apocalipse 16.21). Assim como o selados pelo Cordeiro o seguem, os selados pela besta seguem seus passos de blasfêmia e iniquidade.

João não vislumbra um simples implante subcutâneo ou um aparelho de alta tecnologia que poderia, com grande facilidade, alertar até mesmo os mais incrédulos acerca dos planos de controle do anticristo. O cenário é mais sutil, a estratégia é extremamente ardilosa.

O controle é "de dentro para fora", o coração se entrega à ideologia do anticristo e as mãos agem em conformidade com seus decretos.

O Apóstolo declara o número da besta (666), é número de homem, representa a tentativa final de rebelião contra Deus. O estabelecimento de um governo cuja ideologia prega uma redenção escatológica sem Cristo e uma paz terrena sem a remissão dos pecados.

Tal perspectiva é extremamente sedutora ao coração do homem que deseja, a todo custo, a paz, mas que não está disposto a se subjugar ao Senhor Deus.

Considerações finais

Talvez não tenha avançado muito na compreensão acerca deste assunto tão polêmico no meio cristão, mas espero que, de alguma maneira, tenha pavimentado o caminho para prosseguirmos na discussão do tema, seus comentários são bem-vindos.

Notas

Lemos sobre as pragas derramadas por Deus na terra, são três conjuntos de sete pragas (selos, trombetas e taças), da mesma forma a duração da tribulação corresponde à sete anos, enquanto que a grande tribulação é a metade deste valor, três anos e meio.

Nos é apresentado também outros números: dois grupos de 12 anciãos, as 12 tribos de Israel, as 12 portas e os 12 fundamentos da Nova Jerusalém, os 144 mil selados por Deus, etc.

A ideia de que a marca da besta seja algum tipo de equipamento eletrônico ou microchip fundamenta-se nesta (ou parte desta) declaração do Apóstolo. Embora seja possível restringir o acesso ao crédito de qualquer pessoa sem a necessidade de implantação de algum novo tipo de sistema eletrônico, tome como exemplo o sistema de crédito social chinês.

Talvez num futuro estudo possamos abordar com mais calma e atenção este ponto em especial.

Referências

MARTIN, Alfred. Comentário de Efésios. In: HARRISON, Everett F. Comentário Bíblico Moody: volume 2. São Paulo: Batista Regular do Brasil, 2017. p.665-693.

MARTINS, Yago. No alvorecer dos deuses: desvendando as idolatrias profundas do coração. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020.

SMITH, Wilbur M. Comentário do Apocalipse. In: HARRISON, Everett F. Comentário Bíblico Moody: volume 2. São Paulo: Batista Regular do Brasil, 2017, p.983-1040.


  1. Encontramos alguns exemplos de simbolismos presentes no Apocalipse na maneira como o Apóstolo João utiliza os números.
  2. O Apóstolo João declara que há uma restrição comercial sobre aqueles que não aceitarem a marca: não poderão comprar ou vender. "O texto não diz que os homens não poderão comer se não tiverem a marca (...) da besta, mas não poderão negociar sem esse sinal" (SMITH, 2017, p. 1018).