Depravação total, graça e misericórdia em Robinson Crusoé

As Aventuras de Robinson Crusoé" é mais do que um clássico da literatura internacional. Nos revela a grandiosidade da graça e misericórdia divinas.

Jamil Filho
Jamil Filho

A famosa obra “As aventuras de Robinson Crusoé” escrita por Daniel Defoe e publicada no século XVIII nos conta a história de um jovem inglês inquieto que, rejeitando os conselhos de seu pai para seguir uma vida tranquila e modesta, resolve embarcar em uma jornada mundo a fora.

Mesmo após três séculos a obra de Defoe ainda continua relevante e diversos tratados foram escritos acerca dela. Poderíamos abordar a obra sob a perspectiva da soberania divina e liberdade humana, Mas nossa experiência, hoje, será extrair deste clássico da literatura pontos importantes que podemos aprender e colocar em prática em nossa jornada nesta terra sob a perspectiva da depravação total, graça, misericórdia e quietude.

Espero que este primeiro estudo sobre Literatura e Cristianismo seja de algum proveito para sua vida e fé. Lembrando que seus comentários são sempre bem-vindos, será uma alegria poder conversar com você sobre algum ponto interessante.

Antes de prosseguir temos alguns pequenos avisos, se você ainda não leu a obra e não gosta de spoilers, recomendo seriamente que leia e, depois, junte-se à nós neste artigo. Você pode adquirir o livro na Amazon através deste link, lembrando que recebemos uma pequena comissão e você não paga nada mais por isso.

Outro ponto importante a ser observado, todas as referências foram retiradas da versão para Kindle1 do livro e, portanto, não indicamos nas citações as páginas de onde elas foram retiradas, uma vez que as posições dos trechos podem variar de acordo com as configurações de cada Kindle. Por fim, não pretendemos, neste breve estudo, exaurir todas os pontos e os ensinamentos possíveis que podem ser retirados da obra, nossa proposta aqui é oferecer um norte para que, a partir dele, possamos avançar na discussão.

Um breve resumo

O romance se passa em meados de 1650 quando, após rejeitar os conselhos de seu pai para seguir uma vida quieta e sossegada, Robinson Kreutznauer (nome que segundo o personagem passou a ser pronunciado como Crusoé) decide embarcar em um navio que zarpava para Londres.

Em sua primeira aventura escapa da morte após, no último momento, fugir com a tripulação do navio que naufragava.

Embora abalado com a situação Crusoé decide, no entanto, prosseguir em seu intento e, após conhecer um capitão que pretendia navegar para a África, embarca em sua nova jornada.

Deslumbrado com os ganhos de sua primeira viagem ao continente africano Crusoé, mais uma vez, decide se aventurar, no entanto, ao contrário de seu primeiro empreendimento, sua embarcação é capturada por um corsário, parte da tripulação é vendida e, por dois anos, ele se vê obrigado a servir como escravo nas terras de seu captor.

A história então se desenrola desde sua fuga do cativeiro, uma exploração quase mal sucedida na costa africana, seu resgate por um navio português que se dirigia ao Brasil, alguns longos anos vivendo como proprietário de uma fazenda de cana-de-açúcar até, por fim, após se aventurar em uma missão de compra de escravos na África, naufragar em uma das ilhas no mar do Caribe.

Boa parte do enredo se desenrola em sua solidão na ilha e, é neste ponto, que extrairemos lições importantes sobre uma espiritualidade centrada em Cristo e uma mentalidade alinhada à eternidade.

A obra de Defoe é extremamente religiosa2 (e veremos algumas citações que reforçam este ponto), embora o pano de fundo seja a vida de um aventureiro, o enredo é delicadamente tecido entorno do que poderíamos chamar de “uma jornada espiritual”, que conduz a personagem da rebeldia e pecado, até a conversão.

Talvez, para um leitor desatento ou sem qualquer bagagem prévia de teologia cristã, as citações acerca das Escrituras e as referências à fé de Crusoé se apresentem apenas como um recurso literário utilizado por Defoe.

Mas, como veremos, há muito mais do que apenas isso.

Depravação total

Como citado anteriormente, a aventura de Crusoé inicia quando ele embarca rumo à Londres em um navio junto de um amigo.

Há um tênue paralelo entre este primeiro evento, que marca o início de sua jornada, e a história do profeta Jonas, tal comparação é feita posteriormente na história pelo próprio capitão do navio que naufragara a caminho de Londres.

Assim como o profeta, Crusoé mesmo alertado e orientado para seguir em uma direção, encaminha-se em direção à rebelião de seu coração.

Deixando que soubessem de mim como quisesse o acaso, sem pedir a bênção de Deus ou de meu pai, sem qualquer consideração das circunstâncias ou consequências, e em má hora, Deus o sabe, a 1º de setembro de 1651, subi a bordo do navio.

Ao se deparar, no entanto, com a morte que, por pouco, não ceifou sua vida e ao presenciar, mesmo de relance, os horrores que lhe aguardava, Crusoé hesita em prosseguir em seu empreendimento.

Contudo, por mais que sua razão o alertasse acerca de seu estado de rebelião contra seu pai e contra Deus, Crusoé segue impelido por uma ambição desenfreada e incontrolável.

Mas agora meu destino nefasto já me impelia com uma obstinação a que nada seria capaz de resistir. Embora muitas vezes ouvisse clara e distintamente os apelos de minha razão e de meu juízo mais sereno para que voltasse para casa, ainda assim não achava forças para fazê-lo.

É nítida a convicção que há em seu coração, “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço” (Romanos 7:19)

Inato no coração de todo homem há uma força incontrolável, uma fera indomável, que sempre o impelirá no caminho da rebelião.

Há uma força sombria, quase demoníaca, que distorce todas as percepções da mente, alma e quaisquer outras faculdades mentais e é neste aspecto que dizemos que a depravação é total, pois ela abrange todos os milímetros do ser.

Crusoé sabe que está em rebelião, sua mente já fora iluminada pela graça de Deus, mas ainda assim ele necessitava seguir sua jornada rumo à todos os infortúnios imagináveis para que, no pó, fosse capaz de reconhecer que “Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” (Romanos 3:11,12).

Somente assim a graça e a misericórdia divinas poderiam encontrar em seu coração um solo fértil para o Evangelho.

Graça e misericórdia

No segundo bloco da história, já isolado de tudo e de todos, passamos a contemplar um Crusoé que, aos poucos, percebe sua extrema insignificância e seu terrível estado de pecado.

Impedido de prosseguir em sua jornada ambiciosa e aprisionado pela Providência naquela ilha remota sua mente considera que, afinal de contas, todo seu esforço e sua correria pelo mundo havia sido em vão. Ao refletir, seriamente, sobre seu estado e sobre a misericórdia divina que lhe havia poupado, Crusoé chega à compreensão de que “De um modo geral, este era um testemunho seguro de que dificilmente haveria no mundo situação mais adversa; no entanto, mesmo nela havia algo de negativo ou de positivo que eu devia ser grato”.

Perplexo diante da providência divina que lhe garantira não apenas o livramento no naufrágio, mas o ajuste de dezenas de milhares de pequenas circunstâncias que lhe propiciaram uma vida relativamente tranquila, Crusoé então se curva diante de Deus e reconhece que, mesmo não merecendo nada, o Criador lhe havia dado tudo.

Há um paradoxo gigantesco no contentamento de Crusoé. Aquela ilha que aparentemente lhe seria uma prisão, se tornou em um meio pelo qual seu coração foi conduzido novamente à Presença de Deus. Até então seu coração estava inquieto, perseguia seu desejo incontrolável por aventura e riqueza, mas agora sua alma compreendera que “[…] todas as coisas boas desse mundo não continuam sendo boas para nós quando não servem mais para nosso uso”.

Seu contentamento com o pouco refletia a compreensão de que aquilo que realmente lhe importava estava à disposição: a graça e misericórdia de Deus.

Poderíamos olhar para ambas (graça e misericórdia) somente sob o aspecto do livramento de Crusoé e de sua alma ter sido poupada da morte. O que, num primeiro momento, nos parece ser o propósito inicial de Defoe.

Contudo, a obra nos traz reflexões muito mais profundas e nos apresenta uma face muito mais bela da graça de Deus ao nos revelar que, quietos nEle, podemos confiar em Sua provisão e nos regozijar mesmo em uma ilha deserta.

Aprendi, assim, novamente que é muito raro que a providência de Deus nos condene a uma vida tão baixa e miserável a ponto de não termos oportunidade de mostrar-nos agradecidos.

O problema de Crusoé não era o naufrágio, não era a ilha e não era a circunstância que o cercava. No fim das contas, o problema dele era com o próprio Deus.

E, ao abraçar a graciosa mão do Senhor, sua vida passa por uma guinada surpreendente, que vai muito além de seu retorno à civilização e de um final de vida abastada.

Considerações Finais

Recomendo a obra não apenas por ser um excelente romance no qual Defoe se propõe a refletir sobre aspectos importantes da vida, mas também porque creio que através desta obra podemos, na pessoa de Crusoé, refletir sobre nós mesmos.

Tal como Crusoé muitas vezes nos colocamos em aventuras e jornadas rumo nossa própria perdição e, cegos pela ambição, em algumas delas não somos capazes de enxergar que a aparente adversidade nada mais é do que uma manifestação da graça de Deus nos tirando do controle e aquietando nossa alma para que possamos refletir no que realmente vale a pena.

Muito obrigado pela leitura, será um prazer ouvir suas considerações e continuar esta discussão.


  1. DEFOE, Daniel, 1660-1731. As aventuras de Robinson Crusoé. Tradução de Albino Poli Jr. Porto Alegre: L&PM, 2011. Disponível em: https://link.teoleigo.com.br/robinson-crusoe.
  2. Daniel Defoe não apenas foi educado com o propósito de se tornar um pastor presbiteriano, mas também encontramos em suas influências literárias nomes como de John Bunyan. Escreveu dezenas de obras, incluindo livros, panfletos e artigos sobre os mais variados temas, principalmente sobre a religião.